É bastante comum vermos folhas ou insetos flutuando na superfície da água de uma piscina ou rio. Você sabe por que isto ocorre? Qual a relação deste efeito com o surfactante pulmonar – uma mistura fundamental no processo da respiração?
Se colocarmos cuidadosamente uma lâmina de barbear e uma agulha na superfície da água, eles serão mantidos na superfície pela tensão superficial do líquido. A tensão superficial T é definida como a força superficial por unidade de comprimento,

A tensão superficial pode ser expressa em N/m ou dina/cm.
FIGURA 1

Figura 1: Uma círculo de arame sofrendo forças de atração proporcinadas pela tensão superficial do líquido. Fonte: CAMERON, J., SKOFRONICK, J.G. Medical physics. New York : John Wiley & Sons, 1978, p.139.
A tensão superficial de um fluido pode ser encontrada medindo-se quanta força é necessária para puxar uma espira de arame de uma superfície líquida clara (Fig.1). Na tabela 1 mostramos a tensão superficial de algumas substâncias.
Tabela 1
Substância | Tensão superficial ( |
Éter | 17 |
Clorofórmio | 27 |
Benzina | 29 |
Óleo de oliva | 32 |
Água | 73 |
Mercúrio | 465 |
Tabela 1:Valores da tensão superficial na interface líquido-ar à temperatura de 20ºC.Fonte: OKUNO, E.; CALDAS, I. L.; CHOW, C.l. Física para ciências biológicas e biomédicas. São Paulo: HARBRA, 1986. p.328.
FIGURA 2

Figura 2: Diferença entre forças que atuam sobre uma molécula da superfície e sobre outra do interior do líquido. Fonte: OKUNO, E.; CALDAS, I. L.; CHOW, C.l. Física para ciências biológicas e biomédicas. São Paulo: HARBRA, 1986. p.326.
Uma medida qualitativa da tensão superficial é notar quanto tempo pequenas bolhas de um líquido sobrevivem. Quanto mais baixa a tensão superficial, mais tempo elas resistem. A solução de detergente possui a menor tensão superficial (tabela 1), por isso, é utilizada com sucesso nas brincadeiras de fazer bolinhas de sabão. A tensão superficial é causada por atrações moleculares. Abaixo da superfície, cada molécula de um líquido é atraída em todas as direções por moléculas vizinhas, resultando em uma força total média nula. Entretanto, a molécula da superfície de um líquido é atraída apenas pelas vizinhas laterais, e pelas moléculas abaixo dela. Não há atração molecular acima dela. Assim, as moléculas da superfície sentem uma força de atração para dentro do líquido.
Esta tendência faz com que a superfície torne-se a menor possível. Desta maneira, gotículas de um líquido adquirem a forma esférica quando suspensas no ar, pois a razão superfície-volume da esfera é menor do que a de qualquer outra forma geométrica.
Quando uma agulha, ou lâmina de barbear parece flutuar na água, na verdade, estes objetos são sustentados pelas moléculas da superfície que se opõem ao aumento da área superficial. A tensão superficial desempenha um papel fundamental no funcionamento dos pulmões dos animais (OKUNO, 1982).
TENSÃO SUPERFICIAL NOS PULMÕES
Os alvéolos pulmonares são fisicamente semelhantes a milhões de pequenas bolhas de 100 a 300 micrômetros de diâmetro, interligadas, formando os sacos alveolares. Existem de 250 a 350 milhões de alvéolos num adulto, com uma superfície total de 75m² , que aumenta quando ocorre a inspiração. Uma rede intensa de capilares cobre quase a totalidade dessa área. Os sacos alveolares possuem dimensões variadas, e suas paredes são compostas por uma membrana fina, que é banhada por uma camada de fluido. As propriedades elásticas dos alvéolos dependem principalmente das propriedades mecânicas das membranas e da tensão superficial do fluido.
Os pulmões estão localizados dentro da cavidade pleural. Durante a inspiração, a pressão manométrica dos pulmões, conseqüentemente dos alvéolos, é de -3 mmHg, e a pressão intrapleural é cerca de -4 mmHg. Assim a diferença de pressão entre os lados internos e externos do alvéolo é de 1 mmHg [-3-(-4)] = 1mmHg.
Entretanto, a tensão superficial do fluido que compõe o alvéolo é cerca de 0,050 N/m, e considerando o raio do alvéolo igual a 50
, a diferença de pressão entre os lados interno e externo de cada alvéolo será de acordo com a equação:
Esse valor é cerca de 15 vezes maior que a diferença de pressão observada. Isso significa que, teoricamente, a pressão interna alveolar de -3 mmHg não é suficiente para manter um alvéolo de 50
de raio aberto, já que a pressão externa real de -4 mmHg é maior que -18 mmHg, o resultado teórico. A conseqüência disso seria o colapso dos alvéolos.
O fato de não ocorrer o colabamento alveolar se deve à secreção de uma mistura de lipoproteínas, denominadas de surfactantes , por células secretoras especiais, componentes do epitélio alveolar. Essas lipoproteínas atuam da mesma forma que os detergentes, isto é, diminuem as tensões superficiais do fluido alveolar, reduzindo também a pressão interna necessária para manter abertos os alvéolos. A ausência do surfactante nos pulmões de alguma criança recém-nascida, especialmente prematuras, é a causa da síndrome do distúrbio respiratório idiopatico (RDS), algumas vezes chamado doença da membrana hialina. Esta doença contabiliza milhares de mortes infantis a cada ano nos Estados Unidos; ela mata mais crianças que qualquer outra doença. Segundo o artigo: Mortalidade perinatal e neonatal no Hospital de Clínicas de Porto Alegre, é maior segunda causa morte de crianças.
. Sugestão de trabalho: Peça para os alunos apresentarem um mini seminário sobre esse artigo em sala de aula.
Aparentemente a quantidade de surfactantes produzida em cada alvéolo é fixa. Por tanto quando um alvéolo sofre uma redução, a concentração dos surfactantes por unidade de área é maior, diminuindo mais a tensão superficial do que durante uma expansão do alvéolo.
FÍSICA DOS ALVÉOLOS
Para entender a física dos alvéolos temos que entender a física das bolhas.
Para se falar em física dos alvéolos é importante conhecer a lei de Laplace . De acordo com Laplace, a pressão dentro de uma bolha é inversamente proporcional ao seu raio e diretamente proporcional à tensão superficial. Em outras palavras, a pressão dentro da bolha aumentará se o raio for reduzido e, diminuirá se a tensão superficial diminuir.. A relação entre P (= pressão), T (= tensão superficial), e R (= raio) é
P = 4T/R
Vamos considerar uma bolha de sabão nos extremos de um tubo, com uma válvula separando-as como mostrado na (Fig. 3 a e b) e tente responder a seguinte questão:
.O que acontecerá quando a válvula for aberta para conectá-las? Porque a BOLHA menor tem uma pressão interna maior? Será que ela esvaziará o seu ar para o interior da maior até que o raio de curvatura da bolha maior e do restante da bolha menor tornem-se o mesmo?
FIGURA 3

Figura 3 (a) e (b): A figura (a) representa uma bolha de sabão onde a extremidade P1 apresenta uma pressão menor (volume maior ) e na extremidade P2, uma bolha a uma pressão maior (volume menor). Verificamos que quanto maior a pressão na bolha, menor será seu volume como mostrado na figura (b). Fonte: CAMERON, J., SKOFRONICK, J.G. Medical physics. New York: John Wiley & Sons, 1978, p.139.
Embora os alvéolos não sejam exatamente a mesma coisa que bolhas de sabão, existe uma tendência dos alvéolos menores se colabarem. A atelectasia é a condição que resulta quando um número considerável de alvéolos colapsa. A razão da maioria dos alvéolos não murcharem (paredes colabadas) está relacionada unicamente às propriedades da tensão superficial do surfactante pulmonar. Quando o alvéolo está comprimido, a população de surfactante presente na sua superfície livre é relativamente alta e, por isso, a tensão superficial do líquido alveolar é baixa, diminuindo sua pressão interna. Todavia, quando o alvéolo está expandido, sua superfície interna é grande e a área da superfície livre do líquido alveolar também é grande. O líquido alveolar aumenta sua área livre trazendo moléculas de água do seu interior para a sua superfície, diminuindo a tensão superficial, e consequentemente aumentando sua pressão interna. Assim, a variação da concentração de surfactante na superfície de um alvéolo, diminui a pressão interna de um alvéolo pequeno e aumenta a pressão interna de um alvéolo grande, evitando o colapso dos alvéolos menores.
Assim além de evitar que as paredes dos alvéolos grudem, o que impediria a passagem de ar, o surfactante aumenta a permeabilidade das moléculas de O 2 . Portanto, se o nosso corpo não produzir quantidades necessárias de surfactante pulmonar, teremos problemas para respirar. Essa doença é conhecida por Síndrome do Desconforto Respiratório (SDR) , que afeta principalmente bebês prematuros e, pode ser fatal. O surfactante pulmonar humano possui uma composição semelhante àquela do surfactante de bois e porcos que têm sido usados com sucesso em terapias de reposição reduzindo a taxa de mortalidade de prematuros. Misturas sintéticas contendo os principais componentes do surfactante pulmonar natural têm sido desenvolvidas e testadas, constituindo também uma alternativa para a terapia de reposição em prematuros.
Para saber mais sobre Atelectasia, acesse o artigo:
. Sugestão de trabalho: peça aos alunos para lerem esse artigo e o apresentarem em forma de mini-seminário em sala de aula.
Textos extraídos e adaptados dos livros:
CAMERON, J. R. & SKOFRONICK, J. G. Medical Physics. NY: John Wiley & Sons, 1978.
HALLIDAY, D., RESNICK, R., WALKER , J., Fundamentos de física. 4 ª edição, vol. 2. Rio de Janeiro: LTC, 1996.
HEWITT, P. Conceptual physics. 8ª. Edição. Reading (MA): Addison-Wesley, 1998.
OKUNO, E.; CALDAS, I. L.; CHOW, C.l. Física para ciências biológicas e biomédicas. São Paulo: HARBRA, 1986. 490 p.