Vamos admitir que uma célula tenha forma esférica de raio r. Quando esta célula cresce, sua área superficial aumenta ao longo de duas dimensões (ar²) , mas o volume aumenta ao longo de três dimensões (ar³). Sua sobrevivência exige certa harmonia entre o crescimento superficial e seu volume. Isso se deve ao fato de que o fluxo de gases, íons e moléculas (nutrientes) através de sua superfície desenvolve-se com ritmo mais lento do que o de sua capacidade metabólica, que por sua vez é proporcional ao seu volume.
Além disso, vamos admitir também que as propriedades físico-químicas dos componentes celulares não experimentam alterações importantes que possam influenciar seu mecanismo de sobrevivência.
Se as dimensões críticas de uma célula são caracterizadas pelos raios r menor e r maior , como se vê na Figura 1.

Figura 1: Fonte: Figura adaptada de RODAS DURÁN, J. E. Biofísica : fundamentos e aplicações. São Paulo: Prentice Hall, 2003, p.20.
Então toda célula com raio r colapsará se:
• r < r menor ,pois, seu metabolismo não será suficiente para dar conta do influxo de nutrientes através de sua superfície
• r > r maior , pois, o fluxo de nutrientes através de sua superfície não acompanhará sua capacidade metabólica.
Logo, somente as células com raio r menor < r < r maior conseguirão sobreviver. O fator de sobrevivência f s de uma célula pode ser avaliado pela razão entre o fluxo de nutrientes através da superfície celular e sua capacidade metabólica. Ou seja, o desempenho do radiador biológico deve acompanhar o desempenho do motor biológico. Assim, uma célula não pode aumentar o seu tamanho indefinidamente, pois, esse aumento de dimensão seria acompanhado de um aumento de metabolismo, o que se tornaria problemático já que a eficácia das trocas com o meio externo estaria comprometida (a superfície da célula não aumenta à mesma proporção que o volume). Neste caso, para que os organismos possam aumentar suas dimensões eles teriam que reduzir o seu metabolismo. Isto aconteceu durante o processo de evolução.
Se o comprimento característico desse organismo é r, então o fator de sobrevivência será fs proporcional a 1/r. Enquanto a célula estiver crescendo, teremos fs > 1, mas quando r
r maior o valor de f s decresce continuamente até chegar a fs
1.
Considere uma célula com raio igual a r maior e outra com raio r sendo r menor < r < r maior . O fator de escala entre estas células com formas semelhantes será L = r maior /r. Enquanto a célula de raio r estiver crescendo, teremos L > 1, e o valor limite do fator de escala será L = 1. Biologicamente, quando L < 1, a célula que está crescendo não conseguirá sobreviver. Logo, quando esta célula atingir um raio r
r maior , ela deverá parar de crescer ou se dividirá. Se esta célula se dividir, as novas células terão cada uma fs > 1, repetindo-se novamente o ciclo de vida desse organismo. Sendo assim, o tamanho de uma célula define se ela vai crescer, proliferar ou morrer. Estudos sobre o controle do tamanho celular são especialmente interessantes nas áreas da produção de células-tronco e de mecanismos e terapêutica do câncer.
Texto extraído e adaptado do livro:
RODAS DURÁN, J. E. Biofísica : fundamentos e aplicações. São Paulo: Prentice Hall, 2003. 318p.