Uma das consequências da existência da viscosidade num fluido é a variação da velocidade de escoamento das camadas de fluidos. Assim, as velocidades em dois pontos distintos, da mesma seção transversal de um tubo por onde o fluido escoa, serão diferentes. Um perfil dessas velocidades pode ser observado colocando-se corante em um líquido em escoamento.
O fluido em contato com a parede da tubulação está em repouso, sua velocidade aumenta com a aproximação ao eixo, onde atinge o valor máximo. A diminuição da velocidade, à medida que nos afastamos do eixo central, é produzida pela força de atrito tangencial entre duas camadas adjacentes do fluido que, por sua vez, é função do coeficiente de viscosidade.
FIGURA 1

Figura 1: A figura representa a velocidade do fluido que aumenta com a aproximação ao eixo central, atingindo o máximo valor. Fonte: OKUNO, E.; CALDAS, I. L.; CHOW, C. Física para ciências biológicas e biomédicas. São Paulo: Harbra, c1982.
Quando a velocidade do fluxo através de uma seção é máxima no centro e decresce segundo uma parábola até zero na camada adjacente à parede do tubo, o escoamento se diz laminar , como mostrado na figura 1.
Você provavelmente já observou um rio correndo lento, tranquilo e quietamente e, por outro lado, uma correnteza, turbulenta e ruidosa. O primeiro tipo de rio é um exemplo de fluxo laminar ou fluxo de linha de corrente, que está presente na maioria dos vasos sangüíneos. O segundo é semelhante ao fluxo turbulento, encontrado em alguns poucos lugares no sistema circulatório, por exemplo, nos pontos nos quais o sangue flui rapidamente para as válvulas do coração.
FIGURA 2

Figura 2: A velocidade de um fluido, que escoa em um tubo cônico longo, aumenta gradualmente à medida que o seu diâmetro diminui. No ponto em que a velocidade do fluido excede a velocidade crítica V c , o escoamento passa a ser turbulento. Fonte: Adaptada de CAMERON, J., SKOFRONICK, J.G. Medical physics. New York: John Wiley & Sons, 1978, p.171.
Lembrando do que estudamos no tópico “Dinâmica dos Fluidos”, a vazão é igual ao produto da área de seção transversal pela velocidade: Q = A. v. Assim, ao reduzir gradualmente o diâmetro de um tubo, como mostrado na figura 2, para manter uma vazão constante, a velocidade de um fluido em movimento aumentará, podendo atingir a velocidade crítica V c , neste ponto o fluxo laminar passa a ser turbulento. A velocidade média crítica pode ser determinada pela expressão Vc =
Re / (2rD), onde 2r é o diâmetro do tubo, Re é o número de Reynolds, D é a densidade do fluido e
a viscosidade.
O número de Reynolds é uma grandeza adimensional que indica se o escoamento de um fluido é turbulento ou laminar. Para vários fluidos, o escoamento por um tubo de secção reta circular torna-se turbulento para Re > 2000. Esse valor depende da natureza do fluido, do formato e da superfície interna do tubo de escoamento. (OKUNO, 1982).
A figura 3 mostra a variação da pressão em um fluxo laminar (esquerda) e em um fluxo turbulento (direita). A grande queda de pressão no escoamento turbulento indica a alta resistência associada a esse fluxo.
FIGURA 3

Figura 3: Variação de pressão em um escoamento laminar (esquerda) e em um escoamento turbulento (direita). Fonte: CAMERON, J., SKOFRONICK, J.G. Medical physics. New York : John Wiley & Sons, 1978.
Assim, o fluxo laminar é mais eficiente do que o fluxo turbulento. O fluxo em uma artéria normal precisa de uma pressão menor do que a pressão necessária para manter o fluxo em uma artéria obstruída, cujo fluxo é turbulento. Assim, será necessária a realização de um trabalho maior no segundo caso.
Quando um tubo (ou vaso sanguineo) está obstruído a sua velocidade crítica será menor, facilitando o aparecimento de um fluxo turbulento.
A velocidade na aorta varia de 0 a 0,5 m/s, e assim o fluxo é turbulento durante parte da sístole.
Durante exercícios pesados, a quantidade de sangue bombeada pelo coração pode aumentar quatro ou cinco vezes e a velocidade crítica será excedida por um longo período de tempo. Os sons produzidos pelo coração de uma pessoa fazendo exercícios pesados são diferentes daqueles de uma pessoa em repouso.
Texto extraído e adapatado dos livros:
CAMERON, J., SKOFRONICK, J.G. Medical physics. New York : John Wiley & Sons, 1978.
OKUNO, E.; CALDAS, I. L.; CHOW, C. Física para ciências biológicas e biomédicas. São Paulo: Harbra, c1982. 490p.